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“Vejam Bem”




“Vejam bem, 50 milhões de compatriotas nossos estão vivendo o pão que o diabo amassou, na informalidade e no desemprego. O Brasil tem quase 1 milhão de senhoras que fizeram mamografia, que é um exame barato, descobriram um nódulo no seio, e estão aguardando aí 3 anos em média para fazer uma punção, para saber se aquilo é um câncer ou não. Cavalheiros, vamos botar a mão na cabeça, botar a mão no coração. Só ganhar dinheiro é uma coisa importante, mas a gente tem um povo para alimentar, nós temos uma gente para dar oportunidade, para trabalhar.” (Ciro Gomes, na CNI – Confederação Nacional da Indústria, 4 de julho de 2018)



Foi preciso Ciro chamar bem a atenção de nossos queridos industriais, na plateia do CNI essa semana, de que existe, no Brasil hoje, uma situação de penúria afligindo milhões de nossos concidadãos. A situação das nossas elites é realmente triste – a sua falta de conhecimento é de dar dó.


Ironias a parte, o trecho do discurso acima foi aplaudido por alguns dos presentes. Parece que tocou o coração, mas com certeza não os que aplaudiram Bolsonaro, no mesmo dia e evento, mais cedo. A noção de nossos industrialistas aplaudindo Bolsonaro me enoja. É exatamente essa parcela da elite que precisa ter que escutar certas obviedades, pois parece que a realidade para ela é outra.


Em que pese a estupidez reinante, todavia, vamos concentrar no que interessa. Como já disse Raul Seixas, “se você quer entrar no buraco dos ratos, de rato você tem que transar”. Ciro marcou um gol de placa ao defender a revisão da reforma trabalhista, mas marcou também um gol contra ao fazê-lo naquele palco. Me pergunto se ele não poderia tê-lo feito em outro local?


Talvez não, talvez tenha sido calculado para justamente ter um grande efeito. Ciro está tentando o apoio do Solidariedade e de Paulinho da Força e isso pode ter sido pensado nesse sentido. É que continuo a pensar o tanto que é possível cutucar o establishment com vara tão curta e ainda ganhar as eleições.


Ciro parece quere vestir a (boa) veste de Brizola, mas Brizola não ganhou as eleições presidenciais e quando perdeu, perdeu por poucos pontos percentuais (em 1989, Lula foi ao segundo turno com 11.622.673 contra 11.168.228 votos de Brizola).

E Lula mesmo só foi eleito quando acenou ao establishment por meio da Carta aos Brasileiros e José Alencar. Em 89, Lula também perdeu por pouco. A eleição foi decidida por 57,03% a 46,97% a favor de Collor, uma diferença de 3,04%.


Acredito que as eleições de 2018 também serão decididas por poucos votos – nos dois cenários, mas principalmente na determinação de quem vai ao segundo turno.


Pressagio um cenário com Marina com 10%, Bolsonaro na casa de 12%, Haddad, Ciro e Alckmin com 15% cada. Independentemente de o presságio estar próximo da realidade ou não, a premissa que a ida ao segundo turno será por poucos votos é altamente provável.


Se o segundo turno for Ciro x Haddad ou Ciro x Alckmin, também acredito que o resultado será apertado.


Assim, não cutucar a onça com vara curta me parece uma posição mais segura – ainda que eu seja o chato de plantão. Vejam bem: a elite tem o poder de manipular mais do que 2 ou 3% do resultado da eleição. Essa premissa me parece certa. Um noticiário da Globo desfavorável durante uma semana causa uma perda parecida. Um debate armadilha, uma escalada de notícias negativas nos jornalões também. E Eleições de poucos por cento de diferença são geralmente ganhas por quem tem mais astúcia e é mais aguerrido na estratégia.


O que defendo, portanto, é que essa manha não seja deixada de lado.

O Ciro sincero é o Ciro que eu gosto, mas na mesma toada de meu artigo anterior, o Ciro que eu gosto mais ainda é o Ciro que vai vencer as eleições – por isso a minha preocupação, por mais que venha a ser tachado, corretamente diga-se de passagem, de o “chato” de plantão.


É preciso, para na casa de rato entrar, de rato transar. A verdade dói – se eu fosse burro não sofria tanto, outra frase de Raulzito.


 

Acho que Bolsonaro vai desidratar, mas não tanto quanto pensam. Pesquisa do site DataPoder 360 de semana passada, feita por meio de 5.500 telefonemas e 2% de margem de erro[1]. No cenário com todos os candidatos, Bolsonaro está com 18% e Ciro é o segundo com 12%. O capitão perdeu 3% relativo ao último levantamento, feito em Maio e Ciro subiu um. Marina e Alckmin tem 7% e Haddad 5%.


Alguns detalhes interessantes, que se confirmam nos levantamentos de outros Institutos: Bolsonaro tem grande limitação no universo feminino (só conta com 11%) e Ciro tem baixa adesão nos mais pobres e menos escolarizados (média de 5% nesses extratos). Talvez aí, para superar esses limites, se concentra uma linha de raciocínio estratégico para a campanha de Ciro.


Quanto ao potencial de queda de Bolsonaro, tão decantado pelos pundits, vejamos: Bolsonaro e Ciro tem o maior potencial de voto cristalizado. 79% dos que afirmam votar no candidato do PSL dizem que o farão com certeza, e 70% dos que votam em Ciro também. Marina conta somente com 46% e Alckmin, 56%. Isso, eu creio, é porque as posições dos candidatos Bolsonaro e Ciro são mais efusivas, o que é positivo em um mundo desiludido com a Política. O balanço entre ser autêntico e ser malicioso, se vê, é bem sutil, mas esperamos essa preocupação na campanha do PDT.


Se Bolsonaro perder um terço do seu eleitorado, mais do que o previsto como possível pela pesquisa, mas que sabemos possível em face das notícias e campanhas contra o candidato, Bolsonaro vai a 12%, exatamente a média que achamos que o candidato terá em outubro. A ver.


Assim, os candidatos mais prováveis e fortes para ir ao segundo turno serão Haddad e o candidato ungido no centro, seja ele Alckmin, Doria, tendo ou não Meirelles de vice. Não é provável que com toda a estrutura e tempo de tv esses candidatos não subirão. Por isso, é necessário já estocar munição contra Alckmin/Doria.


A propósito, Michel Temer não disfarça sua satisfação com o esquema Skaf para São Paulo, Doria no lugar de Alckmin, com Meirelles na vice. É a solução perfeita para ele.


Notinha final


Eu acredito que o whatsapp terá um enorme potencial nessas eleições. Se pudesse sugerir algo, é que a campanha de Ciro já estivesse preparando toneladas de memes. Nunca se sabe qual vai viralizar. Por isso é bom estar bem municiado.

[1] https://www.poder360.com.br/datapoder360/datapoder360-a-3-meses-da-eleicao-bolsonaro-e-lider-e-nao-voto-tem-42/

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